segunda-feira, 28 de maio de 2007

O VALE SAGRADO DOS INCAS

por Carlos H. A. Andrade e Fernando e Edgar Salazar

À curta distância da cidade de Cuzco se encontra um dos vales de maior riqueza paisagística e cultural do Peru. Foi formado há milhares de anos pelas correntezas do rio Vilcanota, o mesmo que no passado era chamado de Willkañuta (casa do Sol) ou Willcamayu (rio sagrado).
A área, denominada Vale Sagrado dos Incas, se prolonga por mais de 100 quilômetros (sendo seus extremos as cidades de Pisac e Machu Picchu), e possui numerosos povos (entre eles Ollantaytambo) e impressionantes centros administrativos que testemunham sua milenar ocupação. Se encontra à uma altura média de 2800 metros sobre o nível do mar, e apresenta condições excepcionais, tais como um clima benéfico (18º C de temperatura média anual), rica flora e fauna, terra fértil e inumeráveis riachos que, nascendo das cordilheiras nevadas que o rodeiam, se precipitam em cachoeiras por entre os bosques nativos mais altos do mundo (4200 metros de altitude), provendo-o de abundante água e alimentando o rio sagrado.

A Via Láctea e o Vale Sagrado dos Incas

A Via Láctea é uma nuvem esbranquiçada e difusa que atravessa de forma oblíqua a esfera celeste e engloba muitas constelações. Dentre elas podemos citar Órion, o Escorpião e o Cruzeiro do Sul. É formada por milhões de estrelas e nuvens escuras de poeira e gás que podemos observar em noites de céu limpo. Se a Terra fosse transparente, poderíamos constatar que ela nos rodeia por completo.
Conhecida no mundo andino como Mayu ou rio celestial, serviu aos Incas como eixo de orientação ritual. O cronista Cristóbal de Molina disse que os sacerdotes Incas realizavam durante o Solstício de Inverno uma peregrinação cerimonial anual em função da Via Láctea: partiam de Cuzco em direção Sudeste, seguindo o movimento aparente da Via Láctea, até um lugar hoje denominado La Raya (onde nasce o rio Vilcanota), e onde, segundo a mitologia Inca, nascia o Sol.
Deste lugar regressavam à Cuzco, dirigindo-se à Noroeste, mas agora seguindo a direção do “rio sagrado” (Vilcanota), que também flui de Sudeste à Noroeste.
É nesta peregrinação ritual que o rio celestial (Mayu) se relacionava com o rio terrestre (Vilcanota), já que na antigüidade existia a idéia de que tudo que fosse sagrado sobre a Terra possuía sempre um reflexo no céu.
Atualmente, nas comunidades agrícolas, acredita-se que as forças cósmicas interferem substancialmente na vida diária.
O Mayu não foi apenas um eixo de orientação importante, mas sim um plano de referência para o entendimento do clima terrestre. Todo o conhecimento da época era proveniente das constelações, e existiam três classes delas: as “constelações brilhantes”, formadas por um conjunto de estrelas unidas imaginariamente para formar uma determinada figura, as “constelações escuras”, formadas por manchas escuras da Via Láctea (conhecidas atualmente como nebulosas), e as “constelações mistas”, uma mistura de ambas. As constelações escuras se encontram na região do rio celestial, ou Mayu, onde a densidade e o brilho maior desta região fazem com que as manchas escuras da Galáxia pareçam sombras de enormes silhuetas, geralmente de animais, os quais, no pensamento andino estavam encarregados de gerar fertilidade e abundância na Terra.
Devido à tudo isso, e em função dessas idéias, foram edificados, em todo o Vale Sagrado dos Incas, enormes construções que delimitaram espaços rituais, nos quais se recriou em suas formas respectivas as principais constelações andinas (Árvore, Lhama, Condor, Perdiz, Pontes, etc.), como se o vale e seu rio fossem reflexos, um do outro.
Logo, o Vale Sagrado dos Incas, não é apenas um nome, uma frase, ou muito menos um lugar comum, normal. È na verdade um sentimento, uma maneira de se situar no mundo, uma forma de compreender a vida, um conceito.
A arquitetura do Vale, tal qual sua simetria, parece nos revelar que o mesmo tinha a exclusiva função de servir de espelho da Via Láctea para os Incas.
Na figura abaixo podemos identificar a união do rio com o mar, e como (através da imaginação) nasce a Via Láctea para projetar-se no céu, e unir-se novamente com a Terra em seu extremo superior, dando-nos a idéia da existência de um todo como um ciclo contínuo.
No passado, durante o Equinócio de Primavera (23 de Setembro) se realizava um ritual denominado Mayucati, no qual os Incas entregavam oferendas ao rio Huatanay em Cuzco, para que suas águas, ao unir-se com as do rio Vilcanota, as levassem até Ollantaytambo. Atualmente entregam oferendas ao rio Vilcanota ou Willcamayu (rio sagrado), pois existe a crença de seus desejos são realizados através da chuva.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Você sabia... - 004

... que existem pelo menos 6 trilhas que chegam à cidade de Machu Picchu?


Ao contrário do que geralmente se pensa, a famosa "Trilha Inca" não é a única opção de caminhada até a lendária Machu Picchu. Existem pelo menos 5 outros caminhos escondidos pela Cordilheira dos Andes que tem como destino a tão propagada cidadela Inca. Alguns pesquisadores, entretanto, sugerem outras 9 opções! Ou seja, a cidade de Machu Picchu estava amplamente ligada ao Tahuantinsuyo (o Império Inca), motivo pelo qual os pesquisadores do Projeto INTI não acreditam no termo "Cidade Perdida dos Incas". Importante dizer que apenas 2 ou 3 desses caminhos são abertos ao público. O restante deles, apenas com autorização do governo peruano. Dos percursos disponíveis aos viajantes, sugerimos sempre o caminho de 4 dias, partindo do Km 88 da ferrovia Cusco-Machu Picchu, caminho este que sempre fizemos em nossas expedições com grupos de turistas.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Você sabia... - 003

... que no sítio arqueológico de Kenko (ou Q'enqo, numa grafia antiga, que significa "Labirinto"), a 3580 msnm, distante apenas 3 km de Cusco, existe um verdadeiro observatório solar? Através dele, era possível identificar com relativa precisão o início das Estações do Ano (Solstícios e Equinócios) bem como as melhores épocas para plantio e colheita na região. Ainda hoje, durante alguns dias do ano, os jogos de luz e sombra sobre as pedras impressionam!
O templo principal de Kenko era ainda utilizado para rituais à Pachamama, a Mãe Terra, e cerimônias diversas no grande anfiteatro localizado alí.



Dica para o viajante - 006

Um dos melhores locais para se comer em Cusco é o restaurante Chez Maggy, na rua Plateros 348, bem próximo à Plaza de Armas, no centro da cidade. O forno a lenha e o local aconchegante, apesar de rústico e simples, convidam a saborear as deliciosas pizzas do local. Tudo, lógico, acompanhado das delicosas Cuzquenhas, a tradicional cerveja local.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Zizi Possi canta "Renascer" no Vale Sagrado dos Incas

A qualidade do vídeo não é das melhores, mas a belíssima música de Altay Veloso e as imagens do Vale Sagrado dos Incas compensam tudo!

Videoclipe de Gloria Estefan gravado em Cuzco e Machu Picchu

Você sabia... - 002

... que o vilarejo de Ollantaytambo, no Vale Sagrado, foi construído inteiramente através de profundas observações dos astros?
Não fazem parte dos roteiros oferecidos pelas agências de viagem, mas alguns sítios arqueológicos de Ollantaytambo são até mais importantes e interessantes que os de Machu Picchu. Dentre eles podemos citar a Pirâmide de Pacaritanpu, o Inticcahuarina, a Catachillay, o famoso Wiraccochan e a Huaca del Condor, um verdadeiro observatório solar. Isso tudo, infelizmente, é deixado de lado pelas operadoras e agências de turismo que oferecem pacotes ao Vale Sagrado. Um motivo a mais para viajar com a equipe do
Projeto INTI, numa futura expedição. O convite está feito!

terça-feira, 8 de maio de 2007

SOL, A ESTRELA DE UM GRANDIOSO ESPETÁCULO

Por Alfredo H. Gálvez (licenciado em Turismo) e Carlos H. A. Andrade (astrônomo)

Turistas do mundo inteiro tem um destino em comum durante a segunda quinzena do mês de Junho: Cusco, a antiga capital do fabuloso Império Inca, localizada nos Andes peruanos, à 3.400 metros de altitude.
A Festa do Sol, que segundo alguns arqueólogos é “a mais importante e esplêndida festa de toda a América pré-colombiana”, acontece em um local privilegiado dentro do Parque Arqueológico de Sacsayhuamán, considerado por muitos especialistas como uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno, situado à 3 quilômetros do centro de Cusco, e com fácil acesso à pé ou de microônibus.
A festa lembra os rituais religiosos realizados pelas civilizações Incas, que tinha o Sol como Deus supremo. Profundos conhecedores de diversas áreas do conhecimento humano, principalmente de Astronomia, a ciência do céu, os soberanos Incas escolheram inicialmente a data de 24 de Junho para comemorar - uma vez que é nesta data que acontece no hemisfério Sul um fenômeno astronômico conhecido como Solstício de Inverno. Nessa data, agradecidos pelas colheitas que realizaram durante os meses anteriores, os antigos Incas vestiam-se à caráter, caminhavam em procissão até seus locais sagrados e rendiam sacrifícios e rituais ao astro-rei. Das vísceras de uma lhama um feiticeiro realizava previsões para o ano vindouro, principalmente ao Sapa Inca (o imperador supremo do povo Inca).
Havia ainda o desfile de grupos com estandartes simbolizando as várias comunidades Incas do interior de Cusco e de outras localidades mais afastadas, uma vez que o território Inca abrangia países como Bolívia, Argentina e Chile, por exemplo.
Num misto de ritual sagrado e festa, o imperador oferecia ao deus Sol o coração do animal sacrificado, pedindo boa prosperidade para seu povo nas futuras colheitas, como também nas guerras, que vez por outra aconteciam.
No passado, as cerimônias que compunham a festa aconteciam na grande Huacaypata (atual Praça das Armas), no coração da cidade de Cusco. Atualmente os moradores locais se baseiam nos “queros” (vasos incaicos com desenhos de vestimentas Incas) para criar suas roupas, uma vez que após a conquista espanhola, até mesmo a moda utilizada foi adulterada.
Sobre o objetivo da Inti Raymi, o cronista Inca Garcilaso escreveu: “Era uma festa ao Sol, em reconhecimento pela sua proteção e ajuda, bem como que um culto religioso exaltando o astro rei como o único e universal deus, que com sua luz e poder, criava e sustentava todas as coisas na Terra...”.
A festa era realizada também, na mesma data, em outros locais sagrados do império, como por exemplo, nas Intihuatanas (pedras sagradas espalhadas ao redor de Cusco) e nas Huacas (centros cerimoniais).
Após a conquista espanhola, muito da Inti Raymi original foi alterado, começando pela data, que hoje é realizada por diversos dias, geralmente entre 21 e 29 de Junho. O aspecto de um agradecimento ao Sol, e de um registro astronômico de seu retorno às latitudes austrais, se perdeu substancialmente após a derrota do povo Inca pelos colonizadores europeus, que quizeram (e conseguiram) impor seus costumes, religião e cultura aos sofridos sobreviventes Incas.

sábado, 5 de maio de 2007

Dica para o viajante - 005

Após a caminhada pela Trilha Inca e a visita à Machu Picchu, nada melhor que um mergulho nas águas termais do povoado de Águas Calientes. Basta pegar o ônibus e descer de Machu Picchu. Deixe seus pertences em algum hotel ou pousada (são vários), e dirija-se às piscinas de água quente e fundo de areia. Fique alí por algumas horas recuperando-se da desgastante caminhada. Pernoite em Águas Calientes. Sua noite será agradabilíssima. Se ainda tiver fôlego, existem no local algumas danceterias abertas à noite. Vale a pena!